Fui Preso no Catar por Ser LGBT: O Que Aprendi Sobre Segurança Digital em Viagens Internacionais

Publicado em: 16/06/2026


Por Dennis van Wanrooij

Ser uma pessoa LGBTI, mulher ou racializada aumenta muito os riscos em viagens internacionais. Essa não é uma pesquisa acadêmica, mas algo que constatei por meio da minha própria experiência em viagens internacionais, tanto de trabalho quanto de lazer. A proteção de nossas comunidades em nosso país já é limitada; em outros países, então, nem se fala. 

Neste artigo, compartilho um relato pessoal sobre um incidente que ocorreu comigo em trânsito em Doha, no Catar, e destaco alguns pontos importantes sobre segurança digital, oferecendo dicas para pessoas LGBT que possam enfrentar situações de violência em aeroportos ou destinos internacionais. Apesar de muitos destinos ainda criminalizarem nossas existências e terem procedimentos discriminatórios em práticas corriqueiras de imigração, não acho que o caminho seja deixar de viajar, mas sim se precaver.

Em dezembro de 2025, viajei a trabalho para uma conferência feminista no Nepal, para a qual fui convidado pelos organizadores, que custearam todas as despesas. Como não há voos diretos entre o Nepal e o Brasil, optei pela opção mais barata, com conexão em Doha, no Catar, país localizado no Oriente Médio. A Qatar Airways permite, em sua política, parar por alguns dias em Doha para conhecer a cidade sem custo adicional. Como o voo era longo, optei por essa opção. 

Apesar de saber que era arriscado, eu conhecia muitas pessoas da minha comunidade que já haviam ido e não enfrentaram nenhum problema. Eu mesmo já havia visitado vários países que criminalizam pessoas LGBTI, e nunca sofri qualquer retaliação como turista; pelo contrário, sempre fui bem tratado. O status de turista muitas vezes funciona como uma licença poética para a existência de corpos não desejados. 

No Catar, no entanto, foi um pouco diferente. Menos de 48 horas após desembarcar, eu fui algemado, detido arbitrariamente, interrogado por 16 horas, humilhado, privado da liberdade e da comida, e expulso do país.

Capa Fui Algemado

No dia 5 de dezembro de 2025, eu caminhava sozinho pelo Souq Waqif — um dos mercados mais conhecidos e turísticos de Doha —, quando fui cercado por oito homens vestidos de civil que se identificaram como policiais. Sem qualquer explicação, fui levado para uma delegacia. Meu passaporte e celular foram confiscados. Exigiram minha senha de acesso e passaram a vasculhar mensagens, fotografias, aplicativos e conversas privadas. 

Nessa detenção arbitrária, muitos dos meus direitos humanos e digitais foram violados, como os direitos à liberdade de ir e vir, à privacidade, à integridade psicológica e ao devido processo legal. 

Desde o início, me negaram acesso a um advogado e à embaixada. Eu estava sozinho diante de seis policiais vestidos com roupas religiosas. Argumentei que era diferente deles por ser turista e que estava apenas fazendo compras em uma rua comercial. Não havia qualquer ação minha que pudesse ser punida, a não ser a minha própria existência.

O interessante é que os policiais me julgaram queer com base no que encontraram na internet, principalmente em coisas às quais eles tiveram acesso sem a minha permissão. Como sou uma pessoa bastante fluida, eles obviamente encontraram registros online de momentos em que eu estava usando saia, maquiagem ou mesmo com as unhas feitas. Na delegacia, eu estava de short, regata e um lenço cobrindo os ombros. Em nenhum momento disseram que minha roupa estava inadequada, nem no aeroporto, nem no hotel, nem nas lojas. Estava tudo muito bem até eu ser preso. Não há qualquer sinalização em Doha sobre o que é permitido ou não usar, diferentemente de outros países árabes.

Contudo, pouco importavam as minhas vestimentas na delegacia, pois eles tinham acesso à minha identidade online. Depois que acessaram meu celular ilegalmente, eu era, para eles, réu confesso. 

Sabemos também que países não democráticos têm modelos sofisticados de monitoramento online. Acredito que fizeram uma busca na internet após eu entrar no país, pois fui detido muito perto do meu hotel, que é conhecido pela polícia. Uma simples busca no Google seria suficiente para me identificar. E, com certeza, assim fizeram. A perseguição ativa contra pessoas LGBTI é notória no Catar e causou muita revolta durante a última Copa do Mundo. 

O risco, portanto, não é só físico, mas também digital, e todos nós o enfrentamos durante viagens, mesmo quando fazemos uma parada em um país de trânsito. No momento em que você aterrissa, passa a valer a lei do país de destino. O que era seu direito antes, não é mais, e tudo pode ser negado. 

As diversas violações de que fui vítima durante as 16 horas de cárcere em Doha não são relevantes aqui. Elas foram amplamente relatadas em jornais e revistas de grande circulação, como O Globo e Veja. Fiz a denúncia aos jornais assim que retornei ao Brasil. 

O importante aqui é compartilhar um pouco da minha estratégia de sobrevivência e orientar meus clientes em situações semelhantes. 

Para sair de uma situação assim, primeiro, faça o que pedirem a você. Não resista. Mostre-se amigável. Não demonstre medo. Se não lhe der acesso a um advogado ou à embaixada, como foi o meu caso, não se desespere. Com certeza, seus parentes já acionaram profissionais e embaixadas. Portanto, dependendo do risco do país, nunca viaje sozinho. Na delegacia, não é hora de fazer ativismo. Lá me humilharam muitas vezes, disseram que ser gay é pecado e nojento, expuseram conteúdo explícito meu para todos ali e eu apenas pedi desculpas. Pedi desculpas por ter ofendido a cultura deles, o que não era minha intenção. De de fato, não era. Mostre-se compreensivo com a situação e insista que você é turista e só quer voltar para o seu país. Também assegurei a eles que jamais voltaria ao Catar. Qualquer ato de revolta, piora o seu caso. 

Depois de muito sangue-frio, fome (devido à privação de comida) e espera por ajuda, me libertaram, e recebi uma ordem judicial para deixar o país em 24 horas. O delegado disse que seria muito pior se eu não saísse ou voltasse ao Catar. 

Consegui sair, mas, depois que denunciei publicamente o meu caso no Brasil, diversas pessoas entraram em contato comigo para dizer que os filhos, os amigos e os colegas de trabalho delas continuam presos em Doha até hoje. Eu tive muita sorte! Casos de detenção mais severos são dedicados àqueles que vivem com HIV, às pessoas trans e aos profissionais do sexo no Catar. 

No mundo das minorias, há uma hierarquização do sofrimento infligido pelo Estado, delineada por sistemas absolutamente autoritários, desumanos e, sobretudo, moralistas. 

Após a denúncia pública, em vez de acolhimento e reflexão sobre os contextos que ainda criminalizam pessoas como eu, recebi uma enxurrada de comentários LGBTfóbicos, inclusive da minha comunidade. Como se eu merecesse aquela punição por simplesmente existir e exercer meu direito de ir e vir. É muito similar aos casos em que a mulher é estuprada, mas quem é culpada é ela. 

No meu escritório, a vítima nunca é culpada. 

Casos assim acontecem todos os dias. Dessa vez, aconteceu comigo. No entanto, isso pode acontecer com qualquer pessoa e em muitos contextos, inclusive no Brasil. 

Em casos similares, atuo em defesa da pessoa que teve os direitos humanos e digitais violados, garantindo assistência jurídica à família e apoio no contato com o Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Também emito laudos técnicos e entro em contato com instituições no exterior, se necessário. Além disso, oriento sobre técnicas de segurança antes e depois da viagem para garantir que contas não sejam invadidas e que conteúdos íntimos não sejam violados. 

Se quiser saber mais sobre meu trabalho nesse campo, entre em contato.

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